A Importância da Creche

 

A Creche: entre o Cuidar e o Educar

 

 

 

A forma como cada sociedade lida com a infância está diretamente associada à conceção que tem do que significa ser criança, conceção essa que vem sendo alterada ao longo dos tempos. A infância é a etapa fundamental da vida das crianças, sendo os primeiros 3 anos de vida particularmente importantes para o seu desenvolvimento físico, afetivo e intelectual.

 

 

 

O cuidado e a educação das crianças permaneceram muitos anos enraizados na nossa sociedade, como sendo um encargo das mães e/ou de outras mulheres do agregado familiar. Devido às transformações ocorridas na sociedade, nomeadamente a emancipação da mulher através da sua entrada no mercado de trabalho, surgiu a necessidade de entregar os seus filhos desde cedo aos cuidados de outrem fora do agregado familiar. Surgiram assim as primeiras instituições, denominadas Creches, destinadas a crianças com idades compreendidas entre os três meses e os três anos de idade, que detinham, inicialmente, a função de proporcionar à criança cuidados de saúde, alimentação e higiene. Ao longo dos tempos e no sentido de promover o adequado desenvolvimento global da criança, as creches deixaram de ter um caráter unicamente assistencial, passando a ter uma identidade própria, sendo mesmo, nos dias de hoje, considerado um recurso essencial da comunidade, atuando ao serviço da família e representando uma resposta educativa muito além da simples substituição desta. Segundo o Concelho Nacional de Educação (CNE) (2008), a Creche deve ter, assim, a função de cuidar e educar a criança.

 

 

 

Cuidar e educar são elementos indissociáveis! A maior parte do dia-a-dia de uma creche está centrada em momentos práticos e de assistência por questões de direitos prioritários à infância, como a alimentação, a higiene, o descanso e momentos de lazer onde as brincadeiras ocupam o seu lugar.

 

 

 

Seremos educadores que acreditam que durante esses momentos não há nenhum conteúdo ligado à educação? Seremos educadores que acreditam que os momentos de lazer, onde as brincadeiras infantis se evidenciam, são situações que acontecem porque as crianças não tem outra coisa para fazer?

 

 

 

Todas as atividades diárias que surgem na Creche, a própria rotina, apresentam ligações com conteúdos educacionais: desde a orientação de como se portar à mesa até à construção de uma brincadeira coletiva no parque. Os momentos de acolhimento, o dar colo, carinho e atenção podem parecer ao educador como puro assistencialismo, sem conteúdo educacional. No entanto, enquanto eu acolho há um envolvimento tanto emocional como verbal. O simples ato de dar banho, trocar a fralda, vestir e pentear o cabelo são gestos de comunicação humana entre o adulto e a criança nos quais há uma troca profunda de sentimentos e, portanto, de organização mental, de estruturação interior, de formação da auto-imagem. É nesses momentos que se estimula a criança a ser autónoma, responsável, ativa. O modo como se lida com uma birra, o desagrado, a curiosidade das crianças e como se promove a interação social, determina o tipo de educação que se lhes está a dar. A fala do adulto inicia a criança na linguagem, pois no decorrer das atividades, o adulto vai dizendo o que a criança faz, o que as outras estão a fazer, o que sentem e, assim, vai mediando os atos por meio da linguagem. Não há um conteúdo educativo na creche desvinculado dos gestos de cuidar. Não há um ensino, seja de um conhecimento ou de uma rotina, que utilize uma via diferente da atenção afetuosa, alegre, disponível e promotora da progressiva autonomia da criança.

 

 

 

Por outro lado, as oportunidades de relações oferecidas na creche entre educadores e crianças e crianças entre si, sem laços familiares ou de parentesco, diferem daquele que se recebe em casa. A creche entendida como instituição educativa, constitui-se como o primeiro local em que a criança vivencia situações de inclusão. É agindo e interagindo com os outros e com os objetos que a rodeiam, que a criança constrói o seu conhecimento, inclusivamente sobre si mesma, e que desenvolve as bases para estruturar a sua personalidade. Estas interações com o meio físico e social, resultantes da própria ação da criança sobre o meio, constituem experiências de carácter físico, cognitivo, social ou afetivo que contribuem, de forma integrada, para o seu desenvolvimento (Piaget, 1966). As brincadeiras em grupo são a melhor experiência de socialização.

 

 

 

De acordo com o Concelho Nacional de Educação (2008): “(...) educar significa proporcionar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros numa atitude básica de aceitação, respeito e confiança e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural; cuidar significa valorizar e ajudar a desenvolver capacidades, considerando que a base do cuidado humano é compreender como ajudar o outro, a se desenvolver como ser humano; brincar significa criar um espaço no qual as crianças possam experimentar o mundo e internalizar uma compreensão sobre as pessoas, os sentimentos e os diversos conhecimentos.”

 

 

 

Certamente, para que haja um completo desenvolvimento dos aspetos físico, emocional, afetivo, cognitivo e social, o quotidiano de uma creche deve conceder a cada criança, a educação, o cuidado e a brincadeira como auxiliares no desenvolvimento das suas capacidades individuais, das relações interpessoais e, consequentemente, na formação de crianças felizes e saudáveis.

 

 

 

A creche hoje, além de uma necessidade, é um direito de toda e qualquer criança, independente da classe social, gênero, cor ou sexo.A Educação Infantil é a primeira etapa da Educação Básica, segundo a Lei de Bases do Sistema Educativo (Lei 46/86, de 14 de Outubro), tendo como finalidade o desenvolvimento integral de crianças dos zero aos seis anos de idade, em creches e pré-escolas, compreendendo os aspectos físicos, emocionais, afetivos, cognitivos e sociais.

 


            Para finalizar, gostaria de partilhar com vós a ideia de que, tal como refere Eduardo Sá, “é proibido que os pais imaginem que a creche serve para aprender a ler e contar. Ela é útil para aprender a descobrir os sentimentos, aprender a imaginar e a fantasiar. Para aprender com o corpo, com a música e com a pintura. E para brincar! Uma criança que não brinque deve preocupar mais os pais do que se ela fizer uma ou outra birra”.